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FELÍCIO ROCHO
O debate em torno das chamadas “canetas emagrecedoras” ganhou grande visibilidade nos últimos anos, impulsionado por excelentes resultados clínicos e pela ampla divulgação nas redes sociais. No entanto, a popularização do termo trouxe junto uma série de equívocos que precisam ser esclarecidos. Mais do que soluções estéticas rápidas, esses medicamentos fazem parte de estratégias terapêuticas complexas para o tratamento da obesidade, uma doença crônica reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Entender o que de fato são essas medicações, para quem são indicadas e quais são seus limites é fundamental para um uso seguro e responsável.
O primeiro ponto essencial é compreender que o nome “caneta emagrecedora” não é tecnicamente correto. Trata-se, na verdade, de medicamentos injetáveis indicados para o tratamento da obesidade e/ou do diabetes mellitus tipo 2. O formato em caneta apenas facilita a aplicação subcutânea, geralmente semanal ou diária, dependendo do princípio ativo. Entre os mais conhecidos estão os agonistas do GLP-1, como a semaglutida e a liraglutida, e o agonistas duplo de GLP-1 e GIP, como a tirzepatida, aprovados por agências regulatórias como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a Food and Drug Administration (FDA).
A semaglutida, além de injetável, também está disponível em comprimidos para uso oral. Essas substâncias atuam em hormônios intestinais que regulam a fome e a saciedade, reduzindo o apetite e retardando o esvaziamento gástrico, o que favorece a perda de peso.
Um dos mitos mais comuns é a ideia de que qualquer pessoa pode utilizar essas medicações. Na prática, elas possuem indicações específicas, geralmente para indivíduos com obesidade, definida por índice de massa corporal igual ou superior a 30 kg/m², ou sobrepeso associado a comorbidades, como hipertensão e diabetes. Pessoas sem esses critérios podem não se beneficiar do tratamento e ainda se expor a riscos desnecessários. Além disso, existem contraindicações, como histórico de certos tipos de câncer de tireoide ou pancreatite, que tornam o uso inadequado para alguns pacientes.
Outra crença equivocada diz respeito à durabilidade dos resultados. Estudos clínicos publicados em revistas como o New England Journal of Medicine demonstram que a perda de peso pode ser significativa enquanto o tratamento é mantido. Entretanto, a obesidade é uma doença crônica e, ao interromper a medicação sem mudanças sustentadas no estilo de vida, parte ou todo o peso perdido pode ser recuperado. Isso reforça a ideia de que o medicamento não atua como cura definitiva, mas como ferramenta auxiliar dentro de um plano terapêutico de longo prazo.
Também é um mito acreditar que a caneta pode ser usada sem acompanhamento médico. Esses medicamentos exigem prescrição, ajustes graduais de dose e monitoramento de efeitos colaterais, como náuseas, vômitos e alterações gastrointestinais. O acompanhamento permite avaliar a resposta individual, garantir segurança e decidir sobre a continuidade ou suspensão do tratamento. A automedicação, além de ilegal, aumenta o risco de eventos adversos e de frustrações com resultados inadequados.
Em relação à ilegalidade, é importante ressaltar que a procura pelos tratamentos injetáveis está crescendo tanto que versões falsificadas, adulteradas e contrabandeadas tem surgido no mercado. Medicamentos que não são originais e que não atendem todos os requisitos de controle de qualidade tanto na fabricação quanto no transporte e armazenamento podem ter eficácia diminuída e, pior, causar danos à saúde. Se um medicamento é falsificado, Não é possível garantir que o conteúdo informado no frasco corresponda ao que realmente está nele.
Medicamentos como liraglutida, semaglutida e tirzepatida devem ser comprados em farmácias tradicionais, com nota fiscal e todo o rigor a que os laboratórios que produzem e as farmácias que vendem precisam se submeter. São medicamentos que devem ser mantidos resfriados, com controle adequado e rigoroso de temperatura.
Outro alerta é que o Conselho Federal de Medicina veda a venda de medicamentos em consultórios médicos, pois isso caracteriza infração ética e mercantilização da medicina. Portanto, liraglutida, semaglutida ou tirzepatida não devem ser comercializados em consultórios ou clínicas, mas somente em farmácias.
Por fim, é importante esclarecer que o uso isolado da medicação, sem mudanças na alimentação e na prática de atividade física, tende a produzir resultados limitados e menos duradouros. Diretrizes de entidades como a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia destacam que o tratamento da obesidade deve ser multidisciplinar, envolvendo reeducação alimentar, estímulo à atividade física e apoio psicológico quando necessário. A medicação potencializa esses esforços, mas não substitui hábitos saudáveis.
Os novos medicamentos para tratar obesidade, dentre eles as chamadas “canetas emagrecedoras”, representam um avanço importante, desde que utilizados com critério, indicação adequada e acompanhamento profissional. O uso do termo popular pode induzir à falsa ideia de solução simples e universal, o que não corresponde à realidade clínica. Desmistificar o tema é essencial para que a sociedade compreenda que o emagrecimento saudável exige abordagem individualizada, baseada em ciência, e que não existem atalhos isentos de riscos quando se trata de saúde.
Escrito por: Dra. Bruna Coelho Galvão Marinho - Endocrinologista - CRMMG 39176
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